Impossível nos dias de hoje, eu não gostar de viajar. Durante a infância, viajei muito e muitas dessas viagens foram "forçadas" pois, deveria acompanhar meus pais em suas voltas e vindas por esse mundo a fora. E confesso que odiava! Odiava todo o processo da viagem em si, o chegar e o partir, o organizar e a bagunça da mala no decorrer dos dias... Acho que não gostava pois essas viagens não eram minhas, era deles! Realmente quando vivemos uma vida que não é nossa, a vontade do outro e não a sua, é difícil se sentir parte daquilo que se é realizado, o que dira ser o todo. Em muitas dessas viagens eu me partia por eles, e recebia suas partes em mim, e assim, tentava juntar tudo na mesma mala e sermos uma família em pedaços, para só assim ser completa. Isso sim era bom, o ser um com eles!
Hoje viajo muito, e geralmente sozinha. Viajo para o bairro vizinho, a cidade próxima, o estado que fica la do outro lado, viajo para o outro lado do mundo.
E nessas viagens, viajo em mim, nos lugares, na vida dos outros.... Sou dependente de novos ares, estimulos inéditos, locais incomuns. Preciso de cheiros novos, paisagens, pessoas... busco tantas coisas que me perco na procura, e em cada uma das minhas viagens, trago de volta nao apenas as roupas sujas, sourvenis, trago o pouco que vi, as pessoas que encontrei, trago o meu eu fortalecido, um fôlego novo.
Ao retornar da viagem do ultimo fim de semana, conheci um senhor no onibus. Cabeça branca impondo respeito, sotaque da regiao de Ipatinga bastante carregado, um sorriso no rosto daqueles que fotografos gostam... E para variar nao me recordo seu nome! Mas lembro de sua delicadeza em me oferecer um lugar para assentar ao seu lado, e para não fugir da rotina, como sempre acontece quando alguem me convida para assentar... la foi o senhor de cabeça branca a contar sua vida.
Não compreendo o porque do universo achar que sou amiga de Jung, ou parente de Lacan, prima de Freud, ou ex-esposa-viuva de Nietzsche, pois se sentou alguem ao meu lado, automaticamente ela ja começa a me contar sua historia de vida. A sensação que tenho é a de armar uma banca como a Lucy do Charlie Brow para dar conselhos, mas diferente dela, não cobro apenas ouço. Pelo menos vira historia.
E o senhor de cabeça branca me relatou o dia que conheceu a esposa e o quao feliz é em te-la ao seu lado por 43 anos, e a historia de seus filhos, casamentos, netos... Aquele senhor queria me mostrar que o momento que o aguardava quando o onibus chegasse ao seu destino final, era o que ele tinha de mais precioso: o ter para onde voltar! E ele me disse algo: "filha casa é aquele lugar que por melhor que seja a festa, com as mais ricas iguarias, voce entra e se sente no melhor lugar do mundo. Casa é aquele lugar que se tem certeza que é feliz."
Apos uma hora de monologo, o onibus parou. Aquele senhor de cabeça branca agradeceu a companhia e me disse algo que lembrei da frase que a minha doce amiga Carol Bahasi pronunciou a primeira vez que me viu:
- Voce veio de onde e vai para onde?
- Vim de Salvador agora acho ficarei um tempo por aqui. Mas gosto muito de viajar.
Foi quando o senhor pegou a minha mão e disse:
- Voce nao sente falta de casa?
- Oh meu senhor, não ! Fico bem onde estou, nao sinto saudades....
- Minha filha, no dia que achar o que busca, voce vai sentir saudades e vai querer ficar....
E ele se foi e fiquei com sua imagem, sua voz, suas palavras em minha mente. Ao chegar em casa, quando abri a porta, percebi que achei o que buscava, foi quando vi que o aperto no peito que por hora sinto, se chama saudade.

1 comentários:
Toda noite tenho sonhado que estou em um lugar do mundo e com pessoas especiais...viajar é o maior prazer que a gente pode dar a si mesmo...saudade
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