A celebração do Dia de Finados traz consigo, sempre, muitas possibilidades. Sei, por exemplo, de duas amigas que viveram, recentemente, a experiência de perder uma pessoa querida. Para elas, com a ferida ainda aberta, o dia será, provavelmente, de uma saudade doída, de pranto ainda não estancado.
Meu pai se foi há 4 anos, meu avô a 2. Minhas perdas mais sofridas. Mas já curti o luto, e colhi do tempo um lenitivo, um consolo. Para mim, em relação ao meu pai, o dia de Finados será de uma saudade mais amena, feita de lembranças de momentos bons vividos ao lado dele.
Mas sei também que para uma imensa multidão, o Dia de Finados, em plena segunda feira, será mesmo oportunidade de esticar o feriado num sítio, numa praia, ou mesmo curtir o sossego em casa ao lado da família e de amigos.
Para além das saudades, eu já tenho um programa para o feriado de Finados: assistir novamente o filme “Antes de partir” (The Bucket List), que já vi no cinema e revi algumas vezes em DVD, que fui obrigada a comprar para parar de locar.
O filme conta a história de Carter Chambers (interpretado por Morgan Freeman), um pai de família comum, que há 46 anos trabalha como mecânico e descobre que está com câncer. Internado em um hospital, tem como companheiro de quarto Edward Cole (Jack Nicholson), um empresário milionário que vem a ser o dono do hospital.
Do alto dos seus milhões, Edward deseja um quarto só para si, mas, como sempre pregou que em seus hospitais todo quarto precisa ter dois leitos para que seja viável financeiramente, não pode ter seu desejo atendido, sob pena de afetar a imagem de seus negócios.
Edward também está com câncer e, após ser operado, descobre que tem poucos meses de vida. O mesmo acontece com Carter.
O mecânico, reflexivo diante da idéia da morte, decide escrever a sua "lista da bota", algo que um professor de filosofia lhe passou como trabalho décadas atrás. A tarefa consistia em listar coisas, experiências, desejos que você gostaria de realizar antes de morrer, antes de “bater as botas”.
Ao tomar conhecimento da lista de Carter, Edward acrescenta a ela os seus próprios desejos e propõe que eles os realizem juntos, o que levam ambos a uma viagem pelo mundo para aproveitar seus últimos meses de vida.
A idéia não chega a ser original, o roteiro em alguns momentos é previsível, algumas situações transitam na perigosa fronteira entre o clichê e o pieguismo, mas o filme é irresistível, emocionante, apaixonante mesmo, chegando a momentos de rara sensibilidade e ternura, como quando Edward realiza o desejo de beijar uma linda mulher, um dos itens da lista.
Aliás, o filme já valeria só pela interpretação de Nicholson e Freeman, dois atores que dispensam comentários.
Ao final da sessão, é inevitável: todo mundo sai do cinema (ou do sofá), pensando em sua própria lista: 10 desejos a realizar antes de partir...
Quando me vi diante desse desafio a primeira coisa que pensei foi: 10 desejos é muita coisa!
Gênios da lâmpada, em geral oferecem três desejos. Fica mais fácil, até porque muita gente escolhe, logo de cara, ganhar sozinho na Mega Sena, o que vai facilitar a realização de boa parte da lista.
Mas e os desejos que o dinheiro não resolve? E aqueles que não serão conquistados num passe de mágica?
Desejo, na verdade, é construção. E nem tudo pode ser construído apenas com uma boa conta bancária...
Sei de pais e mães que desejariam a saúde de um filho. Grana pode garantir médicos competentes, hospitais bem aparelhados, remédios de última geração. No filme, os dois tinham tudo isso (Edward era dono do hospital). O câncer ignorou os dólares e manteve o encontro marcado com eles...
Sei de homens e mulheres que desejariam ardentemente ter ao seu lado, de novo, a pessoa amada. Grana pode até trazer de volta um corpo para ocupar o lugar vazio na cama, mas não trará a ternura, a confiança, a admiração, a cumplicidade, a conversa doméstica, a aventura de um fim de semana juntos, essas coisas simples que construímos no cotidiano e que fazem um homem e uma mulher se sentirem companheiros...
Sei de pessoas que só pediriam apenas uma noite de sono, em paz. Outras para quem bastaria eliminar as obrigações com hora marcada, a agonia no trânsito, o mau humor do chefe, a tirania do consumo, a ansiedade opressiva do mundo que quer as coisas pra já quando eu as estou querendo pra sempre...
Penso em tudo isso e pergunto ao meu coração: que desejos quero realizar antes de partir? (lembrando que não estou com nenhuma pressa rs...)
Penso, reflito e minha lista vai emagrecendo. Já conquistei tanto, já realizei demais. Às vezes tenho a impressão de que, ao invés de ganhar uma bolada, de uma vez, na loteria, a vida resolveu me dar o pão ‘nosso’ de cada dia, o suficiente, todos os dias...
Mesmo assim, resolvo buscar, bem lá no fundo, possíveis desejos não realizados.
Penso mais, oro, contemplo... E, de repente, o susto!
Deparo-me com desejos que não tive coragem de confessar nem a mim mesmo. Não porque sejam absurdos ou doentios, mas porque tenho, às vezes, dificuldade em assumir meus sonhos de felicidade pessoal. Porque não tive coragem, até agora, de partir para uma viagem ao outro lado de mim mesmo, onde estão meus desejos adormecidos.
Termino minha meditação serenamente. Reduzo minha lista a um único desejo: viver sem medos as possibilidades do amar e ser amado.
Se realizar esse sonho, terei alcançado, quem sabe, o maior grau de liberdade que um ser humano pode conquistar. Pois, como disse Santo Agostinho, “ama e faze o que quiseres...”.
O amor é a tinta da caneta com a qual escrevo, todos os dias, a minha lista de desejos. A letra, por vezes firme, às vezes trêmula, é minha. Mas tudo o que faço traz a marca, a cor, a caligrafia do Amor que me amou primeiro, e me convida, todos os dias, a realizar o seu desejo amoroso em mim, antes de partir em direção ao nosso definitivo e permanente encontro.
E você leitor, a quantas anda a sua “lista de botas”...?