sábado, 14 de novembro de 2009

Confraria de leitores

Sábado bacana é basicamente assim:
Amanhece nublado na cidade bipolar mas se tem certeza que a tarde vai fazer um sol de rachar. Ai os amigos te ligam e combina-se um churrasco em minha casa com direito a piscina. E chega o Gê cheio de vida e alegria e o Rê amigo-leitor-irmão com seu violão e a Colly morrendo de medo como sempre.
Tarde gostosa de gargalhadas, bate papos, relembrar os grandes feitos de Deus, e o anseio pelos outros tantos que Ele fará. Hillsong na TV, o DVD Might to Save quase furou de tanto que assistimos.... e claro: conselhos, projetos, planos, metas!
E em meio as conversas, um assunto veio a tona: os ciclos da vida. Comentava com os meninos que o impressionante da vida é notar que ela é totalmente cíclica e ao se prestar atenção, é possível notar que o filme que hoje se assiste, é idêntico ao que presenciado no passado. E relendo alguns textos deste blog, noto que o filme da minha vida hoje assemelha muito a algo que vivenciei a 1 ano e 6 meses atrás e eis que percebo que Ge também a passar pela mesma estação. Oh céus, oh vida! Mas o interessante é que praticamente se sabe o final da historia!
Mas sábado bom é ficar de bobeira no sofá, vendo pela enesima vez Might to Save, e dar gargalhadas mil com os telefonemas mais inesperados de passado que sempre quer se tornar presente. Oh vida divertida !
E para o Rê, deixo um recado meu amigo... nos dois que somos tão incompreendido muitas vezes por sempre amar muito, amar o que amamos, a vida, pessoas, amigos, palavras de Gandhi: um covarde é incapaz de demonstrar amor. Isso é privilegio dos corajosos. Então meu querido: ALEGRE-SE !!! Na verdade não fazemos papel de bobos, na verdade somos o que muitos tanto desejam: CORAJOSOS!

Sessão nostalgia

Nina, minha vizinha fofinha que sempre toca aqui em casa
e pede: ohhhh Rê, você pode brincar comigo?
Cheguei mais tarde do que de costume na academia, queria sentir a liberdade de não ter horário pré marcado, e seguir minha rotina a colocar meu tempo ali. Resolvi malhar sozinha. E sozinha estava! Era a única aluna presente na sala de musculação, troca de turno de professores e para minha surpresa, Thales seria o responsável da vez. Sentou-se a minha frente nos degraus da escada, enquanto eu intercalava o correr e o caminhar, e ali se deu inicio a uma longa conversa.
O assunto debatido: peripécias da infância!
Cada um em sua geração, a contar os causos e percausos de seu tempo, entretanto, algo em comum: a liberdade de criação, expressão e os inúmeros acidentes sofridos por cada um, frutos de uma infância nada convencional, onde reinou brincadeiras diversas! E lembrávamos o subir no pé de manga e ali se deliciar com fruta colhida no pé, bilboquês e bolinhas de gude, eu e minha aversão a bonecas, Thales e sua insistência em tentar romper com a lei da gravidade.
Fiquei 1 hora na esteira e Thales comigo na troca de ideias, viajamos no tempo e nos reportamos a ele de modo tal, que foi possível trazer para o presente um riso fácil, memórias gostosas, uma saudade de um tempo que tínhamos certeza de que éramos felizes e o futuro seria perfeito. Não vivenciei minha infância com Thales, não apenas pela distancia geográfica mas geracional, porem vivemos aventuras parecidas e a mesma alegria nas coisas singelas da vida. E naquele momento, foi possível compartilhar memorias intimas de uma fase mágica, que serviu de base para hoje viver a vida a se buscar sentir novamente o prazer de que a vida não passa de uma eterna brincadeira de tentar ser feliz.
Mas Thales ponderou sobre a sua preocupação com seu fiote-fofucho-gatinho Thiago, um encanto de quase 1 ano. Sua preocupações de ser provedor, de não faltar nada para o filho, de ser perfeito, de não projetar nele alguns temores pessoais, de não errar, ser o pai que ele sempre sonhou em ser. Todavia, seu discurso fundia em uma ideia única: que seu filho fosse feliz todos os dias! Naquela hora vi meu amigo-personal-incentivador repleto de medo, e um coração pequenino tamanha a preocupação em ser perfeito.
Lembrei de uma frase de Dostoievski: a alma é curada ao estar com crianças. Thiago é um presente na vida de Thales, para rechear a vida do meu querido de novidades de vida e trazer de volta o vigor da mocidade já vivida.
Assim, malhei o abdomem com muitas gargalhadas, voltei para casa grata não pela infância que tive, mas pela vida que hoje tenho!

ps: amigos leitores, tenho vivido uma fase de poesia Russa, creio que já esta passando... assim espero!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A formiga e a flor

Ao esperar uma cliente que iria fotografar no museu de arte, sentada na porta de casa, contemplei uma pequena formiga a trabalhar. Pequenina, quase imperceptível, carregava uma flor 10x (ok, exagerei!) maior do que ela. Durante longos minutos observei a formiga e ela literalmente carregava um mundo nas costas, era pesado demais para o pobre bichinho que vez ou outra, tombava tendo que se levantar e novamente colocar a flor nas costas.
Uma pressa em chegar ao formigueiro, devido a sua agilidade, rapidez, e como aquela flor atrapalhava todo o processo... Será que ela não percebeu que aquilo era muito para ela? Que sozinha não estava dando conta? Que não se pode ter tudo e carregar tudo ao mesmo tempo? Será que nenhuma formiga se dispôs a ajudar e dividir o fardo?
E devaneei longos minutos contemplando aquela formiga, a sua dificuldade, persistência. Muitas vezes se carrega fardos maiores que nos mesmos, e criamos fardos que não são necessários para carregar. Outros fardos não abandonamos, e se acumulam com os novos que recolhemos pelo caminho.... é a rejeição que gera magoa, que a falta de perdão a transforma em ódio e quando se vê é um pacote tão imenso e pesado que se carrega, que a única coisa que se enxerga é o próprio fardo! Outras vezes é a busca de uma perfeição estética que gera uma neurose que vira anorexia e no final não está magra, mas sim doente!
E se cria fardos, pega outros que não são nossos, ainda aqueles que são pesados demais e não nos pertence mas insistimos em levar!
Já levei fardos pesados demais para mim, em outros tempos, ajudei muitos com seus fardos, ja dividi os meus com outros, já levei todo o fardo daqueles que não tinham força alguma. Porem, vendo a formiga e seu fardo-flor, lembrei das palavras daquele que sempre me ajudou com os fardos, ou melhor, sempre solucionou os meus fardos.
"Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu os aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrarei descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve. Mateus 11:28 - 30"
Ah dona formiga afoita ! Existe alguém que pode aliviar as cargas, e arrancar todo o peso de nossos ombros, coração, alma, vida... Se Deus tem cuidado para que a formiga, ok foi com muito esforço, chegasse com aquele peso todo ao formigueiro, quanto mais com aqueles que escolhem trocar todo o peso pelo seu amor?

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Bilhete premiado

Mexendo em algumas gavetas da minha casa, encontrei um bilhete. Notei que foi escrito pelo meu pai.
Em algumas linhas tortas, entre desabafos e anseios, uma citação de um dos seus "amigos" de todas as noites, que aprendi a apreciar com ele: o homem não tem poder sobre nada enquanto tem medo da morte. E quem não tem medo da morte possui tudo. Léon Tolstoi.
Meu pai nunca temeu a morte, acho que por isso viveu tanto e possuiu tanto. Lembro que ele falava sobre a morte do mesmo modo que se fala da vida, e tinha a certeza que era necessário viver o dia, e viver com tudo a se viver sem perder as oportunidades. Ele sabia que não o restava muito tempo. Ao sentir que os dias se esvaiam diante dele, planejou sua despedida com elegância, queria o que sempre dizia, ficar encantado, foi sem dizer adeus mas deixou muitos bilhetinhos, e para minha alegria, anos depois ainda os encontro!
Aos 9 anos de idade, comentei com meu pai: estranho mas tenho a sensação de que não ficaremos muitos anos juntos. Sempre que olhava para ele, uma nostalgia tomava conta do meu ser. Era uma mistura de saudade, dor, necessidade de registrar tudo, ter memória de elefante! Queria viver tudo ao lado dele, tudo a se viver. Intensidade, tudo isso me ensinou a ser intensa, e por buscar ser intensa, precisei ser inteira para viver tudo. Aprendi a não ser metade, assim perco sempre o restante do todo que me reserva.
Aos 42 anos ele descobriu que não lhe restava muito, e por não lhe restar muito, viveu tudo! E terminou o bilhete assim: aquele que conheceu apenas a sua mulher, e a amou, sabe mais de mulheres do que aquele que conheceu mil. Tolstoi foi feliz, assim como eu fui. Obrigada meu notável escritor por compartilhar pérolas comigo e me convencer que valeu muito a pena.
Pela data, acho que foi seu ultimo bilhete, e nele, encontro um homem apaixonado! Descubro isso anos mais tarde... porem, nunca duvidei da sua imensa paixão pela vida e por minha mãe. Ai, esses bilhetes engavetados... tesouros secretos que surgem em tempo oportuno para alegrar ainda mais o dia, e a vida !

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O sol lá longe....

O céu de Cuiabá, no site da overmundo

Hoje amanheceu nublado na cidade bipolar.... Com aquela cara de frio e fazendo frio ! O calor absurdo de ontem cedeu lugar a uma brisa gostosa que nos faz lembrar que as estações nunca são sempre as mesmas, e variam conforme o querer de Deus. Entretanto, hoje, confesso que esperava o sol, e queria o mesmo, entretanto fico feliz de saber que por mais que densas nuvens fecham o céu impedindo sua luz de brilhar com esplendor, acima delas, o calor e a magnitude que garante o nosso dia, dia, brilha como sempre houve de brilhar.... Em algum lugar ele reluz, amanha quem sabe, em mim também...

Deus costuma usar a solidão
Para nos ensinar sobre a convivência.
Às vezes, usa a raiva para que possamos
Compreender o infinito valor da paz.
Outras vezes usa o tédio, quando quer
nos mostrar a importância da aventura e do abandono.
Deus costuma usar o silêncio para nos ensinar
sobre a responsabilidade do que dizemos.
Às vezes usa o cansaço, para que possamos
Compreender o valor do despertar.
Outras vezes usa a doença, quando quer
Nos mostrar a importância da saúde.
Deus costuma usar o fogo,
para nos ensinar a andar sobre a água.
Às vezes, usa a terra, para que possamos
Compreender o valor do ar.
Outras vezes usa a morte, quando quer
Nos mostrar a importância da vida.
Fernando Pessoa

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Tempo de voltar ao papel

Ao 16 anos, encontrei em Dali, um amigo rs...
Interessante observar ao seu manter um blog com atualização "diaria", a reação de alguns amigos e leitores quanto a ausência de atualização. Alguns perguntam se tenho trabalhado demais, outros logo querem saber se viajei... sempre se busca uma razão para ausência, mas e quando a razão é a mudança do tempo?
Para tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu:
Tempo de nascer e tempo de morrer.
Tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou.
Tempo de matar e tempo de curar.
Tempo de derrubar e tempo de construir.
Tempo de chorar e tempo de rir.
Tempo de prantear e tempo de dançar.
Tempo de espalhar pedras e tempo de ajunta-las.
Tempo de abraçar e tempo de conter.
Tempo de procurar e tempo de desistir.
Tempo de guardar e tempo de jogar fora.
Tempo de rasgar e tempo de costurar.
Tempo de calar e tempo de falar.
Tempo de amar e tempo de aborrecer.
Tempo de lutar e tempo de viver em paz.
Livro de Eclesiastes - capitulo 3: 1-8
Tenho vivido a transição de muitos desses tempos... colhendo o que plantei, de conter, de dar e receber abraços, de jogar fora, de desistir, de calar, de viver em paz.
Em tempos assim, onde vejo a cíclica rotina da vida, aquieto-me e contemplo a maestria do tempo em tecer a minha vida com doçura ímpar.
Em tempos assim, paro e escrevo como nunca! Mas é o tempo de voltar ao papel, as minhas coleções de canetas, tempo de escrever as cartas que tanto amo, tempo de datar minhas palavras, tempo de plantar hoje, os livros que no tempo oportuno alegram sobremaneira a minha alma: abrir meus antigos "livros", os cadernos com meus rabiscos, e admirar com a passagem do tempo em minha vida. E vejo o que meu amável amigo Salomão, com todo seu esplendor e sabedoria, relata que para tudo existe um tempo, e que realmente todo propósito na terra, existe um tempo!
Hoje, não é o excesso de trabalho que me impede de postar caro leitor, não se trata de um momento "melancólico", aprendi que não devemos desprender toda a nossa energia em apenas uma área de nossas vidas, pois outras áreas podem entrar em um processo de falência tamanho, que se chega o tempo do óbito, e não objetivo coisas grandes, ou planos ambiciosos pois, a vida se consiste nas pequenas conquistas, e atualmente acho magnifico demais o simples fato de fazer xixi, após conhecer um jovem de 24 anos que após 3 transplantes de rins fracassados, 10 anos de hemodiálise sonha com o dia que poderá fazer a coisa mais banal e corriqueira de muitos: fazer xixi. Tudo tem passado tão rápido, o ano mal começou e já se finda, e as pessoas perdem o tempo exato de viver aquilo que Deus concede com gigantes que elas mesmas constroem e impoem impedimentos onde não se existe, a vida tendo seu valor baseado em coisas tão passageiras, em conquistar posições e não pessoas, ter, ter, e ter se tornou o verbo que impera e conduz a humanidade, as pessoas querem ser bem sucedidas e não mais buscam ser pessoas de valor. Como aprendi com a querida Ângela: sucesso se escreve é com lágrimas, pois o troféu só recebe aquele que venceu a batalha.
Pode deixar caro leitor que não vou sumir desse blog, voltarei nem que seja para relatar que o Pedro realizou o seu grande sonho: fazer xixi !

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Meu celebre !

Raramente tenho dor de cabeça.... porem, ontem, minha cabeça latejou o dia todo. As 19:00 me rendi, precisei deitar, fechar os olhos para ver se melhorava. A vontade era dormir e acordar apenas hoje pela manha, mas por você, eu acordo !
E não apenas acordo! Esqueço a dor, troco de roupa, enfrento um super transito na Cristóvão Colombo para te ver... não apenas te ver, mas sentir sua presença doce, o abraço cheio de amor, sua delicadeza ao falar, o romantismo que a anos me encanta.
Uma vez li que amizade é um relacionamento voluntário onde se recebe a mesma medida que se dá. E por você rodo o mundo, dou o mundo, pois o que recebo em troca é a magnitude do seu mundo. Rafa é o resumo do melhor do colégio com o melhor da faculdade... anos de convivência, discursões, confusões, contenda mas amor demais, compreensão demais, tudo na medida exagerada que ele tem de ver a vida.
Usando a sua máxima, a frase que melhor o expressa: eu não vivo a vida, eu celebro a vida !
E fomos ao cinema, para assistir ao filme mais confuso do ano. O titulo original em inglês: The time traveler's wife, que recebeu a estúpida tradução, fugindo de modo absurdo do original " te amarei para sempre". Ok, não pretendia escrever uma critica sobre o filme, na verdade, melhor do que escrever critica é corrigir criticas alheia, principalmente quando o filme em questão é "La Ricotta de Passolini," voltando....
O filme conta a historia de Henry que sofre de uma rara modificação genética, que o faz viajar pelo tempo involuntariamente. Em uma de suas viagens, conhece Claire, que se apaixona por ele imediatamente. Anos após anos, ela espera sempre no mesmo lugar que esse estranho viajante retorne. Até que os dois finalmente se encontram e a paixão começa. Porem, o curso de vida de Claire é normal e quando ela menos espera seu grande amor desaparece, sem data para retornar. O filme consiste apenas no desaparecer e retornar de Henry e a tentativa de Claire de dar um sentido a sua vida, tendo como eixo o fato de estar casada com um homem, que pode abandona-la a qualquer instante.
Eu mudaria todo o roteiro, desculpe, sei que o livro é hoje um best seller mas eu o mudaria também. E fiz um árduo esforço para extrair algo bacana, porem interessante observar que a personagem Claire viveu a risca o que escreveu o fabuloso Mario Quintana: escolha o seu amor e ame a sua escolha! Ela escolheu amar um homem, que ela sabia, não estaria ao lado dela em todo o tempo, pelo contrario, iria deixa-la sem informar para onde ia, e se voltaria. Ela escolheu amar aquele homem tão diferente, compreender a sua peculiaridade e aceitar o seu tempo, o que segundo a psicologia é o que promove equilíbrio ao indivíduo e as relações: amor, compreensão e aceitação. Por esse motivo, ele sempre voltava pois, tinha naquela mulher e no lar que construíram o porto seguro para viver e o lugar que lutava para nunca sair, pois sabia que ali era feliz. Interessante observar que juntos, construíram uma família, filhos, sonhos, mesmo estando ele em um limite temporal oposto do de Claire, mas assim como a esposa, escolheu amar e amou a sua escolha.
Mas não se deixe iludir por minhas palavras, achando que encontrará um fabuloso filme romântico, ele é cansativo, confuso e sinceramente não via a hora do tal viajante morrer e o filme acabar !
E a noite terminou a 1 da madrugada: Rafa, eu e a praça da Savassi com nossa prolixidade e filosofia!
Rafa, todo lindo vc amigo! Obrigada pela companhia, filme, Haagen Dazs, pipoca, e por encher a minha vida de amor!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Luto

Avó da minha doce Carol Sissy morreu.... isso doi demais.
Minha lil sissy, força! Entendo a sua dor e em momentos assim o Espirito Santo é magnifico em nos consolar.
Um beijo e um colo para vc !

terça-feira, 3 de novembro de 2009

E em plena terça com cara de segunda...
Recebo um email as 6:10 da manha, de uma pessoa totalmente apaixonada e apaixonante. E me faz o pedido-proposta-convite que se tratando de minha pessoa, algo quase que impossível dizer que não aceito.
Coração dividido.... apertado até.
Corri e mostrei a minha mãe, ainda dormindo, voz mal humorada mas, ao ver as linhas tortas do email, respondeu sem cogitar: claro que sim, minha filha! Diga sim...
E agora ?

Another time... you made the same question.... Why? You know the answer !
For You alone are the Son of God I would go to the ends of the earth.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Antes de Partir

A celebração do Dia de Finados traz consigo, sempre, muitas possibilidades. Sei, por exemplo, de duas amigas que viveram, recentemente, a experiência de perder uma pessoa querida. Para elas, com a ferida ainda aberta, o dia será, provavelmente, de uma saudade doída, de pranto ainda não estancado.
Meu pai se foi há 4 anos, meu avô a 2. Minhas perdas mais sofridas. Mas já curti o luto, e colhi do tempo um lenitivo, um consolo. Para mim, em relação ao meu pai, o dia de Finados será de uma saudade mais amena, feita de lembranças de momentos bons vividos ao lado dele.

Mas sei também que para uma imensa multidão, o Dia de Finados, em plena segunda feira, será mesmo oportunidade de esticar o feriado num sítio, numa praia, ou mesmo curtir o sossego em casa ao lado da família e de amigos.
Para além das saudades, eu já tenho um programa para o feriado de Finados: assistir novamente o filme “Antes de partir” (The Bucket List), que já vi no cinema e revi algumas vezes em DVD, que fui obrigada a comprar para parar de locar.

O filme conta a história de Carter Chambers (interpretado por Morgan Freeman), um pai de família comum, que há 46 anos trabalha como mecânico e descobre que está com câncer. Internado em um hospital, tem como companheiro de quarto Edward Cole (Jack Nicholson), um empresário milionário que vem a ser o dono do hospital.
Do alto dos seus milhões, Edward deseja um quarto só para si, mas, como sempre pregou que em seus hospitais todo quarto precisa ter dois leitos para que seja viável financeiramente, não pode ter seu desejo atendido, sob pena de afetar a imagem de seus negócios.

Edward também está com câncer e, após ser operado, descobre que tem poucos meses de vida. O mesmo acontece com Carter.
O mecânico, reflexivo diante da idéia da morte, decide escrever a sua "lista da bota", algo que um professor de filosofia lhe passou como trabalho décadas atrás. A tarefa consistia em listar coisas, experiências, desejos que você gostaria de realizar antes de morrer, antes de “bater as botas”.

Ao tomar conhecimento da lista de Carter, Edward acrescenta a ela os seus próprios desejos e propõe que eles os realizem juntos, o que levam ambos a uma viagem pelo mundo para aproveitar seus últimos meses de vida.

A idéia não chega a ser original, o roteiro em alguns momentos é previsível, algumas situações transitam na perigosa fronteira entre o clichê e o pieguismo, mas o filme é irresistível, emocionante, apaixonante mesmo, chegando a momentos de rara sensibilidade e ternura, como quando Edward realiza o desejo de beijar uma linda mulher, um dos itens da lista.

Aliás, o filme já valeria só pela interpretação de Nicholson e Freeman, dois atores que dispensam comentários.

Ao final da sessão, é inevitável: todo mundo sai do cinema (ou do sofá), pensando em sua própria lista: 10 desejos a realizar antes de partir...

Quando me vi diante desse desafio a primeira coisa que pensei foi: 10 desejos é muita coisa!
Gênios da lâmpada, em geral oferecem três desejos. Fica mais fácil, até porque muita gente escolhe, logo de cara, ganhar sozinho na Mega Sena, o que vai facilitar a realização de boa parte da lista.

Mas e os desejos que o dinheiro não resolve? E aqueles que não serão conquistados num passe de mágica?
Desejo, na verdade, é construção. E nem tudo pode ser construído apenas com uma boa conta bancária...
Sei de pais e mães que desejariam a saúde de um filho. Grana pode garantir médicos competentes, hospitais bem aparelhados, remédios de última geração. No filme, os dois tinham tudo isso (Edward era dono do hospital). O câncer ignorou os dólares e manteve o encontro marcado com eles...

Sei de homens e mulheres que desejariam ardentemente ter ao seu lado, de novo, a pessoa amada. Grana pode até trazer de volta um corpo para ocupar o lugar vazio na cama, mas não trará a ternura, a confiança, a admiração, a cumplicidade, a conversa doméstica, a aventura de um fim de semana juntos, essas coisas simples que construímos no cotidiano e que fazem um homem e uma mulher se sentirem companheiros...
Sei de pessoas que só pediriam apenas uma noite de sono, em paz. Outras para quem bastaria eliminar as obrigações com hora marcada, a agonia no trânsito, o mau humor do chefe, a tirania do consumo, a ansiedade opressiva do mundo que quer as coisas pra já quando eu as estou querendo pra sempre...

Penso em tudo isso e pergunto ao meu coração: que desejos quero realizar antes de partir? (lembrando que não estou com nenhuma pressa rs...)
Penso, reflito e minha lista vai emagrecendo. Já conquistei tanto, já realizei demais. Às vezes tenho a impressão de que, ao invés de ganhar uma bolada, de uma vez, na loteria, a vida resolveu me dar o pão ‘nosso’ de cada dia, o suficiente, todos os dias...
Mesmo assim, resolvo buscar, bem lá no fundo, possíveis desejos não realizados.

Penso mais, oro, contemplo... E, de repente, o susto!

Deparo-me com desejos que não tive coragem de confessar nem a mim mesmo. Não porque sejam absurdos ou doentios, mas porque tenho, às vezes, dificuldade em assumir meus sonhos de felicidade pessoal. Porque não tive coragem, até agora, de partir para uma viagem ao outro lado de mim mesmo, onde estão meus desejos adormecidos.
Termino minha meditação serenamente. Reduzo minha lista a um único desejo: viver sem medos as possibilidades do amar e ser amado.

Se realizar esse sonho, terei alcançado, quem sabe, o maior grau de liberdade que um ser humano pode conquistar. Pois, como disse Santo Agostinho, “ama e faze o que quiseres...”.

O amor é a tinta da caneta com a qual escrevo, todos os dias, a minha lista de desejos. A letra, por vezes firme, às vezes trêmula, é minha. Mas tudo o que faço traz a marca, a cor, a caligrafia do Amor que me amou primeiro, e me convida, todos os dias, a realizar o seu desejo amoroso em mim, antes de partir em direção ao nosso definitivo e permanente encontro.
E você leitor, a quantas anda a sua “lista de botas”...?